Mostrando postagens com marcador O PALHAÇO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O PALHAÇO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O FILME "O PALHAÇO" E A CRISE VOCACIONAL


O PALHAÇO

Panorâmica da obra

O filme escolhido para esta análise crítica teo-referente é uma produção nacional, de autoria e direção do artista brasileiro Sélton Mello. Trata-se do filme “O Palhaço”, 2011, duração de 90 minutos, recomendado para maiores de 10 anos.

O filme foi produzido utilizando como cenário principal um circo mambembe, rodado em cidades interioranas do Sul de Minas, empregando uma linda fotografia das coisas cotidianas da cultura do nosso interior mineiro. Pessoas simples, do povo, em uma cultura também simples, do linguajar coloquial, de uma atmosfera lúdica quase infantil, cercam a atmosfera em que a trama é desenvolvida.

Sélton Mello, ator premiado, que surgiu no cenário nacional através das novelas da Rede Globo de Televisão, produziu, escreveu o roteiro, e dirigiu o filme, onde atua no papel do personagem principal, Benjamim, que interpreta o palhaço Pangaré. Sélton nasceu em Passos, Minas Gerais, e mudou-se para São Paulo com a família ainda criança; é irmão de Danton Mello, também ator. Seu primeiro trabalho na TV, aos 7 anos, foi em Dona Santa (1979), na Rede Bandeirantes, onde atuou como um dos personagens centrais da novela. Em 1983, novamente despontando com bastante destaque, esteve presente no elenco da novela Braço de Ferro. Embora não seja muito citado, Sélton também é musico, tendo participado de uma banda chamada Vendetta. Porém, ele veio a ser mais respeitado e reconhecido como grande ator e diretor, através da arte do cinema. Sélton atuou em 28 filmes, dirigiu três e dublou outros três, e isso tudo com 41 anos de idade somente.

Considerado até o momento como o filme de maior sucesso da carreira de Sélton Mello, o longa “O Palhaço”, foi lançado em 28 de outubro de 2011. O filme conquistou até o final de dezembro de 2012 um total de 26 prêmios e 4 indicações. Foram 4 prêmios vencidos no Festival de Cinema de Paulínia em 2011, 1 prêmio do Troféu APCA, 4 vencidos no Prêmio ABC de Cinematografia, 12 prêmios vencidos e 2 indicações no Grande Prêmio Brasileiro de Cinema 2012, 3 prêmio vencidos e 1 uma indicação no Prêmio Contigo Cinema, 1 prêmio no Tiburon International Film Festival, 1 indicação no Chicago International Festival. Além de ter representando o Brasil na pré-lista dos filmes que disputaram as 5 vagas para Oscar de melhor filme estrangeiro, o que, infelizmente, não concretizou.

Identificando as cosmovisões da obra:

O tema do filme na visão de seu autor e diretor parece ser a vocação. Especificamente, a vocação de um palhaço. Um contraste de emoções, convicções e realizações nos são apresentadas desde as primeiras cenas. O clima é contrastante também, melancolia, desapontamentos, tristeza profunda, paralelos a alegria, satisfação e despertamento da nostalgia daqueles que experimentaram o fascínio dos circos mambembes que passavam de cidade em cidade. A estrutura dessa trupe, capitaneada pelos pai e filho, palhaços Puro Sangue e Pangaré, interpretados respectivamente pelo ótimo ator Paulo José (Valdemar) e Sélton Mello (Benjamim), é paupérrima em recursos matérias. Possuem uma camionete Rural, um caminhão antigo, que mais quebra do que anda, e uma perua velha Volkswagen Kombi. Improvisam quase tudo, incluindo a música de fundo das apresentações do show maior que é a esquete promovida pelos palhaços, principais artistas do circo. A afinação do elenco é primorosa e compensa as dificuldades estruturais do circo.

A história se passa nos idos do início da década de setenta. Cidades como Passos, Montes Claros e outras do Sul de Minas formam o cenário. Benjamim, o palhaço Valdemar tem uma fixação por ventiladores. Parece que esse eletrodoméstico exerce fascínio ao jovem palhaço como um sonho de consumo da modernidade de seu tempo. Ele não resiste todas as vezes que vê um ventilador. Tenta comprar, mas lhe falta dinheiro. Tenta financiar, mas lhe falta documentos de identidade e CPF. Aliás, este é outro ponto sútil abordado na trama. Um palhaço que não tem identidade, que sofre com a crise de identidade, que procura pela sua verdadeira identidade, por isso é triste fora dos palcos, quando é Benjamim, mas alegre até certo ponto quando assume a identidade artística, o palhaço Pangaré. O problema começa quando a identidade verdadeira, Benjamim, não consegue mais disfarçar sua frustração mesmo quando é Pangaré. Todos percebem, incluindo o seu pai, dono do circo, palhaço Puro Sangue, Valdemar.

Valdemar se preocupa com o filho. Ele sabe que Benjamim não está bem. Sofre de depressão por causa da crise de identidade. Ele tem um grande insight quando em uma de suas paradas nas viagens de cidade em cidade, se depara com um homem violeiro, interpretado pelo, também ótimo ator mineiro, Jackson Antunes, que lhe conta a infelicidade de sua família que havia trocado uma profissão segura de vendedores de tecido pela aventura de lidar com a venda de arroz. A família quebrou. E o personagem então diz a frase, que pode ser tomada como a grande mote do filme: “O rato come queijo, o gato bebe leite, e eu sou o que sou”. Isso desperta imediatamente a atenção reflexiva de Valdemar, que logo pensa e exclama “Benjamim tinha que ouvir isso”. Mais tarde, em uma cena onde Benjamim está de cama, triste, deprimido, surge seu pai Valdemar, que tentando animar sem sucesso o filho lhe diz: “O rato come queijo, o gato bebe leite, e nós, meu filho, somos palhaço”.

Segue-se a trama, a depressão e tristeza de Benjamim pioram até o seu limite, quando, finalmente, ele resolve romper com a trupe, deixar o pai, ainda que a contragosto e decepção deste, pegar a estrada rumo a Lavras em busca de uma jovem, fã de seu personagem, que havia lhe feito elogios e despertado algum interesse maior em Benjamim. A cena da separação é belíssima, com poucas palavras e forte emoção. Em Lavras ele se hospeda em um Hotel simples, aluga um quarto humilde. Procura emprego e acha justamente em uma loja de eletrodoméstico, onde tem ventiladores, objetos de seu desejo, dos quais talvez pense que serão a realização de sua vida e libertação de sua tristeza. O problema é que para ser empregado pela firma ele precisa ter documentos. Benjamim só tem uma velha certidão de nascimento. Ele procura o órgão público responsável, depois de alguns dias obtém a identidade tão sonhada. Consegue o emprego, muda de roupa, para o mais formal, penteia o cabelo de forma diferente. Pronto! Surge um novo Benjamim. Não é mais palhaço, mas o vendedor Benjamim.

Ele continua triste, entretanto. Empreende novamente o objetivo de encontrar a moça que lhe atraiu. Ela trabalha no “Aldo Auto Peças”. Ele consegue chegar a esta loja e lá se depara com o dono, interpretado pelo ator, irmão de Sélton, Danton Mello. Procura então pela jovem, que aparece, e lhe apresenta o dono da loja, com quem ele estava falando, como sendo seu noivo. Eles estão nos dias que antecedem o casamento. Decepcionado, constrangido, sem graça, Benjamim retorna. No dia seguinte ele encontra-se na mesa de almoço com seus colegas e patrão. Este personagem é interpretado pelo ator Jorge Loredo (o zé bonitinho da Praça é nossa). Ele é um falastrão, contador de anedotas, que costuma provocar gargalhadas de seus ouvintes. Todos os funcionários riem muito, menos Benjamim, até certo ponto. De repente, parece que ele começa a se lembrar do Circo, ele esboça um sorriso, nem tanto pela piada de seu patrão, mas porque finalmente ele começa a descobrir sua verdadeira vocação – ser palhaço. Aquele que era engraçado, mas no fundo alguém sem graça, parece, finalmente, estar encontrando a graça naquilo que tão bem faz, sua vocação.

Benjamim pede as contas, pega seu único bem, um ventilador, comprado com o salário conseguido no seu emprego, e retorna para tentar encontrar a trupe de seu pai. Pega carona de bicicleta, caminhão tipo “pau-de-arara”, ônibus, e finalmente chega a seu destino.

Uma grande surpresa para seu pai, o palhaço Puro Sangue que está se apresentando no circo. De repente, do nada, em meio a apresentação, surge o palhaço Pangaré, alegre, sorridente que se intromete contracenando com seu antigo parceiro, que fica praticamente sem reação, emocionado. É dessa forma que Pangaré, ou Benjamim, diz com satisfação e alegria a Valdemar, seu pai, o Puro Sangue: “O rato come queijo, o gato bebe leite, e eu sou palhaço!”. O filme se encarrega de terminar em um clima harmonioso de quem sabe qual a sua missão de vida, sua verdadeira vocação.

 Reflexão Teo-referente na Cosmovisão da Obra:
Como não identificar nesta trama secular a manifestação latente da graça comum de Deus que confere ao ser humano dons e talentos para uma vocação predeterminada por Deus para sua existência e construção do mundo onde vive? A Bíblia ensina em Gênesis 1.28,29 que Deus fez o homem sua imagem e semelhança e lhe conferiu um mandato cultural. “Cultivar a terra” deve ser entendido como criar culturas, expandi-las, compartilha-las e expandi-las. Certa feita alguém perguntou ao reformador Lutero o que deveria fazer para melhor servir a Deus. Lutero perguntou: - o que fazes pra viver?  - sou sapateiro, lhe disse. Ao que respondeu então: “portanto, fazes um bom sapato e vendas por um preço justo, e estarás servindo a Deus.”.

O Breve Catecismo em sua clássica primeira pergunta aponta para esta realidade da vocação, qual o fim principal do homem? Não existe outro senão “glorifica-lo e gozá-lo para sempre”. Agostinho de Hipona demonstrou poeticamente que “a alma inquieta está, e só repousará tranquila quando estiver em Ti (Deus)”. Vocação secular não é menos do que vocação para o Ministério. De fato esta última tem um caráter glorioso, mas, em comum com a primeira o fato de ambas nascerem do decreto eterno de Deus.

O filme “O palhaço” tem a capacidade maravilhosa de nos fazer pensar sobre isso: a vocação, chamado divino para servir a Deus, ao próximo, a sociedade, em todas as profissões que existem, da mais simples a mais gloriosa, da menos culta à que mais exige preparo acadêmico. Todas são oriundas em Deus, o grande Criador de todas as coisas.

Faz-nos pensar ainda que a felicidade pode estar bem perto da gente, sem percebermos, e que por assim fazer entramos em crise, crise desnecessária muitas vezes. Feliz é o homem que encontra em Deus sua felicidade! Feliz, consequentemente por isso, ele se torna quando valoriza aquilo que de Deus recebeu, a capacidade de fazer coisas que somente ele pode fazer dentro do pequeno mundo em que vive.  Fazer da mote do filme a nossa própria é algo encorajador. “O rato come queijo, o gato bebe leite, e eu sou pastor”. E você?


Para uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema do trabalho humano e a vocação dada por Deus, sugiro a seguinte bibliografia para consulta:

1 LENZ, Kléos M. Vocação - Perspectivas Bíblicas e Teológicas. Viçosa, MG. Ed. Ultimato. 1999. p. 17 – 22.
2 SPROUL, R.C. Verdades Essenciais da Fé Cristã. Editora Cultura Cristã.
3 CALVINO, As Institutas – edição Clássica, Vol III, p.428- 36; Vol. IV, p. 48-56
BIÉLER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. Trad. Luz, Waldyr Carvalho. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 520-65
ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER. Símbolos de fé: contendo a Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. 1ª pergunta.


Seguir por e-mail