quarta-feira, 27 de agosto de 2014

PODE-SE ORDENAR MULHERES PARA LIDERANÇA DA IGREJA?




                                                                                                                                                                                                                         









UMA ANÁLISE REFORMADA SOBRE OS TEXTOS USADOS PARA DEFESA DA ORDENAÇÃO FEMININA


                      Um dos movimentos que mais avançam na igreja cristã no mundo, e também no Brasil, é o “feminismo cristão”. Igrejas históricas, outrora ortodoxas, têm se rendido cada vez mais à prática heterodoxa de ordenar mulheres para desempenho de funções de liderança na igreja. O argumento principal continua sendo sociológico-antropológico, em que se reivindica a igualdade de gênero partindo do princípio da modernidade de que mulheres cada vez mais vêm ocupando papéis de destaque na sociedade em todas as áreas: política, esportes, trabalho, educação, cultura e lar.

        E quando se pensa em fundamentos teológicos e bíblicos para justificar a ordenação feminina, a coisa fica complexa. O que podemos aprender com nossa única regra de fé e prática, a Bíblia, sobre o tema? Propomos abaixo analisar algumas passagens bíblicas chaves para a compreensão deste assunto polêmico, porém altamente pertinente para determinar uma eclesiologia bíblica e saudável.

Romanos 16.7

Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e estavam em Cristo antes de mim. (ARA)


Os defensores da ordenação feminina têm buscado apoio nesse texto específico para demonstrar que existiram apóstolas na igreja do Novo Testamento. Consideram que “Júnias” era um nome feminino[1], e que a expressão “são notáveis entre os apóstolos” pode ser interpretada como que tal pessoa era um deles.

Quanto à primeira assertiva de que “Júnias” era uma mulher, o Dr. Augustus Nicodemus defende a ideia de que as variantes do grego (Iouniân, Ioulían) não permitem afirmar com certeza se era feminino ou masculino. “O problema é que não sabemos em que gênero Paulo o usou em Romanos 16.7.”[2] (LOPES, 1997, p. 13). Hendricksen é categórico: “A continuação, que pode ser traduzida ‘homens notáveis entre os apóstolos’ (RSV), favorece a conclusão de que ambos eram homens.” (HENDRICKSEN, 2011, P. 634).

Ademais, a expressão “notáveis entre os apóstolos” pode ser interpretada, como querem os igualitaristas, como se fosse o sujeito da frase um apóstolo também?[3] Justiça seja feita, em relação a isso, Augustus Nicodemus defende a ideia de que “gramaticalmente, tanto pode indicar que Andrônio e Júnias eram apóstolos, quanto que eram tidos em alto apreço pelos apóstolos.” (LOPES, p. 15). Como descobrir então qual o sentido é o verdadeiro? Buscando conhecer melhor a etimologia da palavra “apóstolo” e seu significado teológico.

A palavra apóstolo no Novo Testamento é usada, não somente para os doze, para Paulo, e para algumas pessoas associadas a ele [delegados apostólicos], como Barnabé, Silas e Timóteo (cf. Atos 14.14; 1 Tess. 2.6), mas também para mensageiros e enviados (este é o sentido primário da palavra grega apóstolos) de igrejas locais, como Epafrodito (Fil 2.25) e uns irmãos mencionados em 2 Coríntios 8.23. Estes não parecem exercer governo ou autoridade sobre as igrejas locais, eram simplesmente enviados por elas. Portanto, se Andrônico e Júnias eram apóstolos, deveriam pertencer a este tipo de mensageiros das igrejas locais; antes, eram enviados por elas para desempenhar diferentes funções como representantes ou emissários. (LOPES, p. 15).

            Quem quer que tenha sido Júnias, a única coisa que se pode falar com absoluta certeza é que essa pessoa, seja homem ou mulher, era alguém considerado de alta conta pelo apóstolo Paulo, e que esses homens, Andrônico e Júnias, foram instrumentos de Deus na igreja de Jesus Cristo, tendo abraçado a fé antes mesmo de Paulo. (HENDRICKSEN, p. 634). Qualquer inferência maior a seu respeito carece de provas e maiores evidências.


Gálatas 3.28

Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. (ARA)


Este verso de Gálatas tem sido usado, talvez como a principal passagem, para defender a igualdade de função eclesiástica entre homens e mulheres. Os defensores da igualdade que emancipa a mulher habilitando-a ao ministério da Palavra, a ordenação para o episcopado, sustentam a tese de que esse texto iguala homem e mulher, e desta forma, abole qualquer lei de subordinação feminina à autoridade masculina. Quanto a isto, explica Augustus Nicodemus:

... A abolição das diferenças mencionadas no versículo em questão (3:28) são em relação à justificação pela fé. (...) O assunto de Paulo, portanto, não são as funções que homens e mulheres desempenham na Igreja de Cristo, mas a posição que todos os que creem desfrutam diante de Deus, isto é, herdeiros de Abraão e filhos de Deus. (LOPES, 1997, p. 19).
           
Desta forma a igualdade anunciada em  Gálatas 3.28 é quanto à posição[4] diante da doutrina da justificação (GUTHRIE, 1984, p. 140), que é a temática predominante da epístola, em que Paulo está combatendo a heresia judaizante dentro daquela comunidade de salvos.

“Um” na presente passagem não significa igual, e sim unidade. “Se Paulo quisesse enfatizar igualdade ele poderia ter usado palavras como “igual” (no grego, isos) ou “igualdade” (Isotes)”. (LOPES, p.21). Todos são um em Cristo, porque todos são pecadores, e todos os que creram foram justificados unindo-se a Cristo, formando a unidade, que não permite acepção de pessoas mais por classe, sexo e etnia. (HENDRICKSEN, 2009, p. 183.).

Em resposta à reivindicação dos feministas bíblicos de que Gálatas 3.28 é uma correção do efeito imediato da Queda[5] que levou a mulher a se tornar submissa ao homem, e somente por isso ela é submissa, cremos que é grave equívoco considerar que Paulo está aqui ensinando “que Cristo já aboliu na presente era, total e plenamente, os efeitos do pecado e os castigos impostos por Deus ao homem e à mulher, quando originalmente pecaram.” (LOPES, p. 21). Augustus Nicodemus argumenta que se tal passagem contivesse esse princípio de ensino então deveríamos considerar também que, de igual forma, em Cristo a mulher está livre das dores do parto e o homem não precisaria trabalhar com fadiga para obter seu sustento. (LOPES, p. 22).

A plena redenção destas coisas, e das demais que ainda afligem os cristãos, homens e mulheres, ocorrerão plenamente na parousia, quando o Senhor Jesus trouxer em plenitude o reino de Deus. (LOPES, p. 22).


Atos 2.16-18

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. (ARA)


Atos 2.16-18 também é muito utilizado pelos defensores da ordenação feminina para defender a ordenação feminina ao ministério de liderança da igreja. Consideram que no sermão de Pedro, com base na profecia de Joel, os termos “filhas” e “servas” profetizando, recebendo o derramamento do Espírito, tal como os homens, reivindica autoridade para afirmar que mulheres podem ser oficiais, presbíteras, pastoras, líderes de igreja, visto que no Novo Testamento a profecia equivale ao ofício da pregação.[6]

Destarte, este argumento é por demais frágil. Partimos do princípio que se, de fato, Pedro, ao pregar sobre esse texto, introduzia um novo costume de legar às mulheres igualdade em relação aos homens para o governo da igreja, por que no período da igreja apostólica não há nenhuma menção no Novo Testamento, nem na história da igreja, de apóstolas, presbíteras, pastoras e bispas? Nos textos normativos sobre as qualificações dos presbíteros (1 Tm 3.1-7 e Tito 1.5-9) não existe absolutamente nenhuma indicação de que Paulo tinha outra ideia, senão homens exclusivamente para o oficialato eclesiástico. “O oficial deve ser marido de uma só esposa, deve governar bem a sua casa e seus filhos (função do homem, nos escritos de Paulo, cf. Efésios 5.22-24)”.

Augustus Nicodemus lista pelo menos três considerações sobre essa passagem e a ordenação feminina:

(1) Os fenômenos associados por Joel e Pedro ao derramamento do Espírito nos últimos dias, como profecia, sonhos e visões, e que são ditos que seriam concedidos às mulheres, não estão ligados no Novo Testamento ao presbiterato ou pastorado, e, portanto, poderiam ocorrer sem que as pessoas envolvidas (homens ou mulheres) fossem ordenadas.
(2) Havia profetizas na igreja apostólica, como as quatro filhas de Felipe (Atos 21.9; cf. 1 Co 11.5), mas não lemos que eram presbíteras ou pastoras.
(3) Embora não lemos no Novo Testamento de mulheres tendo visões ou sonhos em decorrência do derramamento do Espírito (e nem de homens, diga-se também), não é impossível que haja acontecido; todavia, neste caso, com certeza, não estava restrito a pastores e presbíteros. (LOPES, p. 26).

Considerar que a recepção dos dons espirituais habilita as mulheres a estar em pé de igualdade com homens para serem ordenadas é uma suposição sem apoio bíblico. “Se o dom profético daria às mulheres igualdade com os homens nas funções litúrgicas, por que exigir-lhes que orem e profetizem com a cabeça coberta, expressão cultural de que estavam debaixo de autoridade? (1 Co 11.3-15).” (LOPES, p. 27).

Passagens examinadas até aqui (Rm, Gl 3.28; At 2.1-4) não sustentam a tese defendida pelos igualitaristas para defender a ordenação feminina. Demonstra, sim, que as mulheres cristãs, juntamente com os homens, participam da graça de Deus e dos dons do Espírito, sem restrições, sem, contudo, apontar para a ordenação ao ministério ou ao presbiterato.



TEXTOS BÍBLICOS EMPREGADOS PARA DEFENDER A DISTINÇÃO DE PAPÉIS ENTRE HOMENS E MULHERES NA ECLESIOLOGIA CRISTÃ

A fundamentação bíblica para a não ordenação de mulheres para a liderança da Igreja do Senhor pode ser mais bem desenvolvida a partir dos próximos textos.

1 Coríntios 11. 3-16

Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo.  Todo homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.  Toda mulher, porém, que ora ou profetiza com a cabeça sem véu desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada.  Portanto, se a mulher não usa véu, nesse caso, que rape o cabelo. Mas, se lhe é vergonhoso o tosquiar-se ou rapar-se, cumpre-lhe usar véu.  Porque, na verdade, o homem não deve cobrir a cabeça, por ser ele imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem.  Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem.  Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem.  Portanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade.  No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher.  Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus.  Julgai entre vós mesmos: é próprio que a mulher ore a Deus sem trazer o véu?  Ou não vos ensina a própria natureza ser desonroso para o homem usar cabelo comprido?  E que, tratando-se da mulher, é para ela uma glória? Pois o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha.  Contudo, se alguém quer ser contencioso, saiba que nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus. (ARA)


Esta passagem aborda um levante feminista que estava ocorrendo no seio da igreja de Corinto. Mulheres estavam orando e profetizando (provavelmente em línguas) com a cabeça descoberta, isto é, sem o véu, contrariando os costumes das igrejas cristãs primitivas (1 Co 11.3-16). O tema específico deste capítulo é o culto público. (MORRIS, 2006, p. 122.). Augustus Nicodemus reconhece a dificuldade de interpretação deste texto, contudo, enumera os pontos principais do ensino paulino na passagem. (LOPES, p. 30).

(1) Algumas mulheres, equivocadamente, estavam interpretando o ensino do evangelho apresentado por Paulo, entendendo que não somente diferenças raciais, mas qualquer restrição para função na igreja, haviam sido removidas, igualando homens e mulheres. O uso do véu, como sinal de submissão à autoridade, então não teria mais sentido, podendo ser removido. Com isso, em plena desobediência, elas estavam quebrando uma convenção social e tentando impor um costume estranho ao culto público. (MORRIS, p. 121).

(2) Paulo não nega o direito de a mulher participar do culto público, mas insiste que elas devam fazê-lo trajando o véu, sinal de autoridade (MORRIS, p. 122), preservando a tradição, não provocando dissensão ou escândalo. O princípio estabelecido é a preservação do sinal de que mulheres estão debaixo da autoridade eclesiástica masculina. Uma questão de honra. (MORRIS).

Noutras palavras, embora Paulo permita que a mulher profetize e ore no culto público, ele requer dela que se apresente de forma a deixar claro que está debaixo de autoridade, no próprio ato de profetizar ou orar. (LOPES, p. 32.).

            A estrutura do argumento de Paulo é teológica. Cristo está sujeito ao Pai, o homem está sujeito a Cristo, a mulher está sujeita ao homem. Evidentemente não é uma subordinação ontológica, o que seria uma heresia considerar que o Pai é superior ao Filho em seu ser. De igual forma, o homem não é superior à mulher no seu ser. Ser o cabeça significa então exercer uma liderança econômica, ou seja, na função, desta forma, a hierarquia funcional começa na Trindade e continua na Igreja e na família. Cristo não se torna menor que o Pai ao submeter-se à sua liderança, assim como é preconceituoso achar que a mulher se inferioriza ao considerar a liderança masculina sobre si. Cristo é a glória do Pai[7], a igreja é a glória de Cristo, e a mulher é a glória do homem.[8] [9]

Em várias ocasiões o Novo Testamento determina que os crentes se sujeitem às autoridades civis (Rm 13.1-5; 1 Pe 2.13-17). Em nenhum momento, entretanto, este mandamento implica que os crentes são inferiores ou têm menos valor que os governantes. Igualmente os filhos não são inferiores aos seus pais, simplesmente porque devem submeter-se à liderança deles (Ef 6.1). O conceito de subordinação de uns a outros tem a ver apenas com a maneira pela qual Deus estruturou e ordenou a sociedade, a família e a Igreja. (LOPES, p. 33).

Paulo se serve ainda da doutrina da Criação para explicitar o argumento de que a mulher é a glória do homem (e, portanto, a ele subordinada, as esposas a seus maridos, e a mulher em geral à autoridade dos homens na igreja de Cristo[10]).  Versos 8 e 9. A partir da compreensão dos detalhes da Criação, o apóstolo consegue visualizar uma ordenação divina quanto aos diferentes papéis do homem e da mulher. A intenção divina em subordinar a mulher à liderança de seu marido deveria ser refletida também no culto, onde a mulher deveria participar de maneira condizente com a vontade revelada de Deus, com modéstia[11] e decoro. (CALVINO, 2003, P. 332.).  

Se a mulher está debaixo da autoridade eclesiástica exercida pelo homem ao participar do culto, não pode exercê-la sobre ele. Ser ordenada como presbítera ou pastora implicaria que ela poderia ensinar aos homens com a autoridade que o oficio empresta, e participar do governo da igreja, exercendo autoridade sobre os homens crentes. Isso contraria frontalmente o princípio ensinado por Paulo na passagem. (LOPES, p. 34).
           
Quando Paulo chama a atenção da igreja em Corinto para a quebra do decoro, ele não está pensando somente em uma convenção social, mas no estabelecimento de um princípio a partir disto, que é contra o ensino bíblico sobre a ordem do Culto, e o governo da igreja. Calvino entendia que o fato de Paulo dizer que a mulher não deve profetizar de cabeça descoberta não referenda uma prática[12]. “A mulher não tem o direito de profetizar, nem mesmo com suas cabeças cobertas”. (CALVINO, p. 333.)

1 Coríntios 14.33-38

Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja. Porventura, a palavra de Deus se originou no meio de vós ou veio ela exclusivamente para vós outros? Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo. E, se alguém o ignorar, será ignorado. (ARA)


Que tipo de restrição Paulo tinha em mente quando escreveu que as mulheres fiquem em silêncio na igreja? Augustus Nicodemus entende que não se trata de uma restrição absoluta, reduzindo as mulheres ao silêncio total. (LOPES, 1997, p. 42). Compreende ainda que elas podiam falar no culto (cf. v. 29), mas não deveriam questionar publicamente, ou ensinar, os profetas homens. Ele vê  elementos, principalmente em  1 Coríntios 11.5, que permitem dizer que as mulheres “poderiam orar e profetizar durante as reuniões, desde que se apresentassem de forma própria, refletindo que estavam debaixo da autoridade masculina”. (LOPES, 42.). Calvino, contudo, era radicalmente contrário a essa ideia. Para o reformador era totalmente incompatível submissão e ensino feminino, seja por meio de orações ou profecias no culto público.[13] (CALVINO, 2003, p.  444-45).

A aplicação desse texto nos dias de hoje talvez seja um dos maiores desafios no que diz respeito à sua contextualização. Questões de ordem podem ser levantadas, tais como, se o princípio bíblico estabelece a restrição total para qualquer tipo de ensino ou pregação por parte de mulheres no culto público, então, seria legítimo e coerente, permitir que mulheres ensinem em classes de Escola Bíblica Dominical, participem da Educação Cristã de crianças, exerçam liderança, presidindo ou sendo conselheiras em sociedade interna para público masculino (UMP e UPA’s), e assim em diante? Ou bastaria que elas fossem supervisionadas sob a liderança de um homem?

1 Timóteo 2.11-15

A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso. (ARA)


Esta é, provavelmente, a passagem mais importante para a discussão sobre o ministério feminino ordenado[14] (LOPES, p. 45.). Paulo, ao escrever ao jovem pastor Timóteo, que cuidava da igreja em Éfeso, procurava orientá-lo como proceder para corrigir a tentativa de introdução de heresias por parte de falsos mestres infiltrados na igreja. Eles semeavam dissensões, trivialidades, a prática do ascetismo como forma de atingir uma espiritualidade superior, abstinências de várias coisas. Provavelmente, as mulheres poderiam estar sendo seduzidas a seguir tais ensinos, o que explicaria o fato aparente de uma espécie de insurreição feminina. (LOPES, p. 46-47). Paulo usos palavras fortes para adjetivar tais ensinos. “Ensinos de demônios”. (1 Tm 4.1-2). Desta forma, ele regulamenta, e é neste contexto que emite ordem proibindo que mulheres ensinassem na igreja.

Ensinar, no Novo Testamento é uma atividade bem ampla. (...) Nas Epístolas Pastorais, ensinar sempre temo sentido restrito de instrução doutrinaria autoritativa, feita com o peso da autoridade oficial dos pastores e presbíteros. (...)
... Paulo não está proibindo todo e qualquer tipo de ensino por mulheres na igreja. (...) O ensinar que Paulo proíbe é aquele em que a mulher assume uma posição de autoridade eclesiástica sobre o homem. (LOPES, 1997, p. 49-50).
           
Desta forma, se na proibição de ensinar está circunscrita a ideia de ensinar assumindo posição de autoridade eclesiástica, logo, por causa disso, exclui-se qualquer possibilidade de ordenação de presbíteras e pastoras. O governo feminino não encontra sustentação bíblica (LOPES, p. 51). “A mulher não deve entrar na esfera de atividade para a qual a força de sua própria criação não é apta. (...) Por amor a ela e para o bem-estar espiritual da igreja, proíbe-se essa pecaminosa intromissão na autoridade divina”. (HENDRIKSEN, 2011, p. 140).

Alguns intérpretes, tentando adequar a um vezo cultural da época[15], tentam interpretar a orientação paulina reduzindo o campo de ação desta ordem à esfera do casamento, como se o preceito de não poder ensinar fosse aplicado apenas no contexto da subversão de autoridade no casamento[16]. Quanto a isso, Augustus Nicodemus nos informa:

Como observa Douglas Moo, se Paulo desejasse se referir a maridos, teria usado um artigo definido ou um pronome possessivo antes de aner. Nesse caso, a frase ficaria assim: “Não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre seu marido”, como fez em Efésios 5.22; cf. Col 3.18. (LOPES, p. 52).

Outra tese que tem sido proposta, embasada por um espírito liberal, é que não foi Paulo o autor das Epístolas Pastorais, e sim um admirador de Paulo, que é chamado de “Paulinista”. Este, então, teria deturpado o ensino de Paulo, escrevendo de forma contrária ao pensamento original do apóstolo, condenando as mulheres e reduzindo-as ao silêncio. Interessante, que para chegar a essa conclusão, tais intérpretes liberais precisam rejeitar, igualmente, passagens como 1 Coríntios 11.2-16 e 14.34-35. O contorcionismo exegético não tem fim para atingir o objetivo de retaliar a Bíblia a fim de condicionar propostas teológicas à harmonia dos tempos de uma cultura moderna. (LOPES, p. 53-54).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por que a Igreja Presbiteriana do Brasil não ordena mulheres? Porque não é bíblico e, não sendo bíblico, fere o princípio regulador do culto, fere a confessionalidade da igreja, direcionando-a ao erro, à heresia, à impureza e à destruição. Se o fizesse traria sobre si mesma, e sobre as mulheres membros que fossem ordenadas, o justo juízo de Deus. Historicamente, todas as denominações cristãs evangélicas que sucumbiram ao apelo dos tempos, de uma cultura moderna, pressionadas pela sociologia e antropologia, fizeram ruir os fundamentos firmes que as sustentavam. Depois da ordenação feminina, a ordenação de gays e lésbicas fica a poucos centímetros de distância.

Aqueles que insistem na tese equivocada de afirmar que os escritos de Paulo foram direcionados exclusivamente a situações locais, de um tempo determinado, incorrem em grave ofensa à doutrina da infabilidade e inerrância da Bíblia. Sobre isso, afirma Augustus Nicodemus:

Quase que todos os livros do Novo Testamento foram escritos em resposta a uma situação especifica de uma ou mais comunidades cristãs do século I, e nem por isso intérpretes igualitaristas defendem que nada do Novo Testamento e aplica às igrejas cristãs de hoje. (...)
O ponto é que existem princípios e verdades permanentes que foram expressos para atender a questões locais, culturais e passageiras. Passam as circunstâncias históricas, mas o princípio teológico permanece. Assim, o comportamento inadequado das mulheres de Corinto e de Éfeso, e as heresias que a provocaram, cessaram historicamente, contudo os princípios aplicados por Paulo para resolver os problemas causados por essas heresias permanecem válidos. (LOPES, p. 56).

O Rev. Ludgero Bonilha, em artigo publicado no Jornal Brasil Presbiteriano, como resposta à entrevista dada pelo Rev. Waldir Carvalho Luz à revista Ultimato, em que este defende a ordenação feminina, apesar de admitir que não existe sustentação bíblica para isso, diz que:

Era parte daquela cultura que as mulheres exercessem liderança espiritual sobre os homens. Veja o grito das mulheres no boicote ao véu ali na Igreja de Corinto. As sacerdotisas nos templos pagãos eram mulheres, as divindades adoradas eram mulheres, como a “deusa Diana dos Efésios” e tantas outras. Grande parte dos crentes da Igreja de Corinto, como de outras na Ásia Menor, eram egressos do paganismo. Paulo falava num contexto cultural pagão e sua ordem não foi uma adaptação cultural, pelo contrário, ele levantou-se contra uma cultura vigente. O Cristianismo e o Judaísmo levantaram-se contra uma cultura feminista e pagã. (MORAIS)[17]


A Comissão Executiva da Igreja Presbiteriana do Brasil já firmou posição sobre a matéria parecida[18]:

SUBCOMISSÃO IX - CONSULTAS E OUTROS PAPÉIS II - CE-SC/IPB-2012 - DOC.CLIX - Quanto ao documento 182 - Oriundo do(a): Sínodo Central Espírito-Santense - Ementa: Consulta sobre mulheres pregando no culto Público. A CE-SC/IPB - 2012 RESOLVE: Declarar que não há impedimento bíblico para que, em ocasiões ou situações especiais, mulheres preguem, sob a autoridade do pastor, que é o responsável pela docência da Igreja nos termos constitucionais.

SUBCOMISSÃO IX - Consultas e Outros Papéis II - CE-SC/IPB-2013 - DOC.XXXVII - Quanto ao documento 051 - Oriundo do(a): Sínodo Brasília - Ementa: Pedido de anulação da Resolução CE-SC/IPB 2012, Doc. CLIX - Consulta sobre mulheres pregando no culto público e apreciação da matéria pelo SC/IPB 2014. Considerando: 1. Que o trabalho da mulher acha-se presente na Igreja, inclusive como missionárias e irmãs piedosas e altamente preparadas, cooperando com a pregação da Palavra, principalmente em igrejas menores, congregações e campos missionários; 2. Que declarar o impedimento das mulheres como pregadoras, seria olvidar a importantíssima contribuição que elas conferem ao desenvolvimento da Igreja 3. Que a CE-SC-2012, não legislou a respeito do assunto, limitando-se a esclarecer algo que tem cooperado com o desenvolvimento da Igreja, respondendo à consulta formulada; A CE-SC/IPB - 2013 RESOLVE: Não dar provimento à solicitação.


            Finalmente, o fato de não se poder, conforme demonstramos fartamente com apoio das Escrituras, ordenar mulheres, não significa que elas não gozem de apreço, honra e dignidade. Mulheres cristãs piedosas têm sido uma grande bênção no decorrer da história da igreja. Elas apoiaram seus maridos, criaram filhos piedosos, exerceram o ministério de intercessão, misericórdia, hospitalidade, e cooperaram significativamente para o crescimento da igreja. Muitas se dedicaram à música sacra, compuseram hinos, serviram como instrumentistas no culto público, agregaram valor ao ministério da igreja. Não é preciso um ofício apócrifo para validar a utilidade das mulheres na igreja do Senhor, basta-lhes cumprirem sua vocação natural, conforme prescrita nas Escrituras e serão bem-aventuradas, juntamente com os homens, nas lides da proclamação do Evangelho de nosso Senhor.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

1.      BRUCE, F. F. Romanos – Introdução e Comentário.  São Paulo: Edições Vida Nova, 219.
2.      CALVINO, João. 1 Coríntios. Trad. Valter Graciano Martins.  São Bernardo do Campo: Edições Parakletos, 2003.
3.      ___________. Gálatas. Trad. Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 1998.
4.      ___________. Pastorais. Trad. Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 1998.
5.     DORIANI, Dan. Mulheres e Ministério. Trad. Helen Hope Gordon. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.
6.     DUNCAN, J. Ligon; HUNT, Susan. Ministério Feminino na Igreja Local. Trad. Sachudeo Persuad. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
7.      FEE, Gordon. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. 1 & 2 Timóteo, Tito. São Paulo: Editora Vida, 1994.
8.      GUTHRIE, Donald.  Gálatas – Introdução e Comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984.
9.      HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Gálatas. Trad. Valter. G. Martins. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.
10. ___________. Comentário do Novo Testamento – Romanos, 2ª edição. Trad. Valter Graciano Martins. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
11. ___________. Comentário do Novo Testamento – 1 e 2 Timóteo e Tito, 2ª edição. Trad. Valter Graciano Martins. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
12. HODGE, Charles. Comentário de I Coríntios. Barcelona, ES: El Estandart de La Verdad, 1996.
13. KELLY, J. N. D. I e II Timóteo e Tito – Introdução e Comentário. Trad. Gordon Chown.  São Paulo: Edições Vida Nova, 2006.
14. KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento – 1 Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
15. ___________. Comentário do Novo Testamento – Atos, volume 1. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.
16. LOPES, Augustus Nicodemus. Ordenação de Mulheres – Que diz o Novo Testamento? São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997.
17. MARSHALL, I. Howard.  Atos – Introdução e Comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006.
18. MURRAY, John. Romanos. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012.




[1] Leenhard informa que Júnias poderia ter sido esposa de Andrônico, tese considerada improvável por grande parte de outros comentaristas. LEEHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – comentário exegético. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Aste, 1957, p. 389.
[2] Se tivermos que tomar uma decisão, devemos dar mais peso à palavra de Epifânio, porque ele sabe mais sobre Júnias do que Crisóstomo[2], já que informa que Júnias se tornou bispo de Apameia. Concorda com isso o testemunho de Orígenes (morto em 252 d. C.), que numa alusão em latim à Epístola aos Romanos se refere a Júnias no masculino. (LOPES, p.13).
[3] Quanto à cláusula “notáveis entre os apóstolos”, Leehnardt entende que “não é preciso torcer o sentido para salvar a ideia dogmática de um apostolado fechado”. Provavelmente, Andrônico e Júnias foram da primeira geração de crentes que viram o Senhor, e, portanto, possuem um chamado apostólico como portadores de uma mensagem da ressurreição. (LEEHNARDT, 1969, p. 389). Posição reafirmada por F.F. Bruce: “Pode ser que tenham tido direito ao apostolado com base no fato de terem visto o Cristo ressurreto.” (BRUCE, 1979, p.219). John Murray assume outra posição. Ele acredita que “visto que nos escritos de Paulo tal vocábulo usualmente possui um significado mais estrito, é mais provável a cláusula significar que aquelas duas pessoas eram bem conhecidas entre os apóstolos, distinguindo-se por sua fé e serviço. (...) Eles se tornaram cristãos antes de Paulo, estavam associados ao circulo de apóstolos da Judéia.” (MURRAY, 2012, p. 592.)
[4] Calvino, comentando 1 Coríntios 11.3, expressa a mesma opinião paralela a Gálatas 3.28: “Quando Paulo diz que não há diferença entre homem e mulher, ele está falando do reino espiritual de Cristo, onde as características externas [personae] não são levadas em conta, pois esse reino não tem nada a ver com o corpo [material], nada a ver com as relações físicas e reciprocas do homem [ad externam hominum societatem]; assim, toda sua preocupação gira em torno do espírito.” (CALVINO< 2003, p. 331).
[5] Uma outra dificuldade com a interpretação igualitarista é que parece ignorar que Paulo, às vezes, enraíza a subordinação feminina, não na Queda, mas já na própria Criação, como por exemplo, em 1 Coríntios 11.7-10 e 1 Timóteo 2.12-15. (LOPES, 19-20).


[6] “Qual o significado do verbo profetizar? Nos cenários do Antigo Testamento, ele traz a conotação de predizer o futuro. No acontecimento do Pentecostes, a previsão do futuro não está evidente. Uma outra intepretação é a de que profetizar é equivalente a pregar. E, por fim, ‘profetizar pode significar engajar-se em louvor a Deus (veja 1Cr 25.3)’. (...) Na igreja primitiva, os profetas instruíam e exortavam o povo de Deus.” (KISTEMAKER, 2006, P. 126).  Morris, concordando, diz: “Profecia é fala inspirada. (...) Todavia, a ênfase [no NT] não é a predição, mas a exposição do que Deus disse.” (MORRIS, 2006, p. 138.).
[7] Assim creu Calvino: “... Deus, pois, mantém a preeminência; Cristo mantem o segundo plano. Como assim? A resposta é que ele se fez sujeito ao Pai, em nossa carne, porque, afora este fato, sendo de uma só essência com o Pai, ele é igual ao Pai. (...) Meu ponto de vista é que ele é inferior ao Pai em razão de ter-se vestido com nossa natureza, de modo a tornar-se o Primogênito entre muitos irmãos.” (CALVINO, 2003, p. 331.).
[8] “A mulher tem o lugar que lhe é próprio, mas não é o lugar do homem. Ela se mantém para com o homem em tal relação como nenhuma outra coisa, e assim ela é chamada glória do homem”. (MORRIS, P. 123.).
[9] “... a mulher é um esplendido adorno na vida do homem. (...) a mulher foi criada com expresso propósito de enriquecer sublimemente a vida do homem.” (CALVINO, p. 335).
[10] “Há quem inquira se Paulo está fazendo referência somente à mulher casada, porquanto há aqueles que restringem o que Paulo ensina aqui, com base no fato de que isso não diz respeito às virgens, porquanto elas não estão sujeitas à autoridade de um esposo. No entanto, isso não passa de um equivoco, porquanto a visão de Paulo vai além, ou, seja, atinge a lei eterna de Deus, o qual criou o sexo feminino sujeito à autoridade dos homens.” (CALVINO, 2003, P. 336).
[11] “E daqui podemos aventurar-nos a uma conjetura provável de que as mulheres que possuíam uma invejável cabelereira tinham o hábito de aparecer em público com a cabeça descoberta com o fim de exibir sua beleza.” (CALVINO, 2003, P. 334.)
[12] Antecipando questionamentos sobre a legitimidade de a mulher pregar no culto público, Calvino assim se expressa: “A isso respondo, que, ao desaprovar o apóstolo uma coisa aqui, não significa que está aprovando a outra, ali. Pois quando as censura de profetizarem com a cabeça descoberta, ele não está absolutamente fazendo uma concessão para profetizar, senão que está protelando a censura contra este erro para outra passagem [cap. 14].  (...) o apostolo espera das mulheres esta conduta modesta, não só no local onde toda a congregação se reúne, mas também em qualquer outra das reuniões mais formais, seja de senhoras, seja de senhores, como às vezes sucede em reuniões domésticas privadas. (CALVINO, 2003, p. 334.). 
[13] “Pois alguém dirá: ‘O que as impede de ensinar, embora estejam em submissão? ’ Minha resposta é que a tarefa de ensinar é uma função que pertence a alguém incumbido da supervisão da Igreja, e é, por essa razão, inconsistente com a condição de submissão. Pois,. Quão inconveniente seria para uma mulher, que vive em sujeição a um dos membros, presidir. (...) ... se  a mulher está em submissão, ela está, pois, impedida de exercer autoridade para ensinar em público. (...) A autoridade de ensinar, está excluída da função da mulher, porque, caso ela venha a ensinar, logicamente se colocará acima de todos os homens, embora ela devesse estar em submissão.” (CALVINO, 2003, p. 444-45).
[14] A limitação do escopo deste trabalho não permite estender mais do que já foi estendido. Para um melhor estudo desta passagem recomendamos a leitura do comentário de Calvino (CALVINO, 1988, pp. 73-79) e de Gordon Fee (FEE, 1994, pp. 80-86).
[15] Sobre isso, veja o que afirma Hendriksen: “... essas diretrizes [o ensino bíblico] acerca do papel da mulher em relação ao culto público se baseiam não numa condição temporal ou circunstâncias contemporâneas, mas sobre dois fatos que têm significação para todos os tempos, a saber: o fato da criação e o da entrada do pecado.” (HENDRIKSEN, 2011, P. 140).
[16] Goordon Fee repudia essa proposta. Comentando 1 Timóteo 2.9-12, diz ele: “Paulo volta-se a seguir para as mulheres (sem o artigo definido, no grego, implicando um contexto mais amplo do que meramente esposas)”, e ainda, “... Por causa do exemplo de Adão e Eva, que se segue, muitas vezes se sugere que aqui ele se dirige às esposas com vistas a seus maridos. Mas a implicação da palavra toda talvez  tenha em vista uma frente maior, que inclua a conduta das viúvas mais moças e o andar elas (‘de casa em casa’ [igrejas-lares?]; e não somente ociosas mas... falando o que não devem (5:13).” (FEE, 1988, p. 81, grifo do autor)
[18] Há controvérsias sobre isso, visto que muitos entendem que não é função da CE propor entendimento sobre matéria nova, principalmente sobre doutrina e ordem do culto, mas que tal consulta deveria ser encaminhada ao SC/IPB, que é o foro adequado para normatizar e resolver questões como esta. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O AMOR QUE PERMANECE - MEDITANDO NOS SALMOS 136

O amor que Permanece

Exposição do Salmo 136

1 Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre.
 2 Rendei graças ao Deus dos deuses, porque a sua misericórdia dura para sempre.
 3 Rendei graças ao Senhor dos senhores, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 4 ao único que opera grandes maravilhas, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 5 àquele que com entendimento fez os céus, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 6 àquele que estendeu a terra sobre as águas, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 7 àquele que fez os grandes luminares, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 8 o sol para presidir o dia, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 9 a lua e as estrelas para presidirem a noite, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 10 àquele que feriu o Egito nos seus primogênitos, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 11 e tirou a Israel do meio deles, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 12 com mão poderosa e braço estendido, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 13 àquele que separou em duas partes o mar Vermelho, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 14 e por entre elas fez passar a Israel, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 15 mas precipitou no mar Vermelho a Faraó e ao seu exército, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 16 àquele que conduziu o seu povo pelo deserto, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 17 àquele que feriu grandes reis, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 18 e tirou a vida a famosos reis, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 19 a Seom, rei dos amorreus, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 20 e a Ogue, rei de Basã, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 21 cujas terras deu em herança, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 22 em herança a Israel, seu servo, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 23 a quem se lembrou de nós em nosso abatimento, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 24 e nos libertou dos nossos adversários, porque a sua misericórdia dura para sempre;
 25 e dá alimento a toda carne, porque a sua misericórdia dura para sempre.
 26 Oh! Tributai louvores ao Deus dos céus, porque a sua misericórdia dura para sempre.

O Salmo 136 é considerado um cântico de ação de graças. Na tradição judaica, este salmo é frequentemente conhecido como o Grande Hallel (“o Grande Salmo de Louvor”). Os judeus o recitam ao final do jantar pascal. (Cf. Sl 113; MT 26.30.)
Este Salmo tem por objetivo recordar e proclamar as grandes obras de Deus. As suas cinco estrofes podem ser agrupadas em duas seções. Sendo a primeira, uma convocação para adorar a Deus com base na obra da criação (V. 1-9) e, a segunda, convoca-se a adorar a Deus com base na sua obra redentiva, contada ao logo da história de seu povo (V. 10-26).

Este hino de ação de graças parece grandemente com o Salmo 135 no conteúdo. Ele é, entretanto, muito mais litúrgico, tendo um refrão antifonário que aparece em cada versículo. A constante repetição do mesmo estribilho ("porque para sempre é sua misericórdia" ) faz pensar que na recitação do salmo se foram alternando dois coros, ou um solista e um coro.
Esse estribilho provavelmente era entoado pela congregação em resposta às sentenças cantadas pelos levitas, ou então era entoado pelo coro de levitas em resposta ao canto de um chantre (aquele que dirige os cânticos). Caso fosse removido o coro repetido, restaria um curto salmo de louvor, que exalta a bondade do Senhor. Esse é o tema principal: A bondade eterna de Deus.

Há cinco seções neste poema.
Podemos deduzir então que a declaração “Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia (hesed) dura para sempre” parece ter adquirido uma importância quase que de credo, pelo tempo em que esses textos foram trabalhados na estrutura canônica. Tanto os Salmos 118 quanto o 136 são explorações longas, líricas dessas verdadeiras confissões de fé. Elas começam e terminam com a mesma afirmação.
Como dissemos, o tema do Salmo 136 salta a vista no seu coro: a misericórdia do Senhor dura para sempre!
O termo hebraico utilizado aqui no Salmo 136, traduzido (ARA) por misericórdia, ou benignidade (ARC), ou ainda, amor (NVI) é hesed.
Hesed ocorre 246x no AT, sendo que aproximadamente metade dessas ocorrências está nos Salmos. Descreve, mais frequentemente, a disposição e as ações beneficentes de Deus para com o fiel, Israel, seu povo, e para com a humanidade em geral.
Misericórdia, como está em nossa versão atualizada de Almeida, está entrelaçada a bondade de Deus. Misericórdia, nesse contexto, diz respeito à disposição benigna de Deus para com seus eleitos, livrando-os de perigos, perdoando-lhes pecados, concedendo-lhes vitória e descanso. O seu caráter, portanto é totalmente redentivo.

PORQUE DEUS É MISERICORDIOSO?

Deus é misericordioso porque ELE é bom.

A misericórdia é sempre resultado da bondade de Deus. A palavra misericórdia é latina e a ideia geral é ter o coração na miséria. Dr. Héber Carlos de Campos define misericórdia como “a bondade de Deus ou o amor de Deus para com os que se encontram em miséria e angústia espirituais, sem levar em conta o fato de que eles a merecem”. (Campos, 276). Por isso, não se pode entender a manifestação da misericórdia à parte da queda. Antes desta o homem criado à imagem e semelhança de Deus, vivia em santidade e perfeita retidão, desta forma não conhecia a expressão deste atributo divino, a misericórdia, visto não ter pecado, e, portanto, não ter impedimentos ou reivindicações do caráter santo de Deus para ser punido e disciplinado.

Em síntese, Misericórdia é a bondade de Deus quando mostrada aqueles que estão em miséria. (Bavinck, II, 219).

Neste Salmo nos é dito que a misericórdia de Deus dura para sempre. Isso é um reflexo da ideia bíblica encontrada no decálogo (Ex. 20.6: “... e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”.) “Mil gerações” pode ser entendido como a misericórdia que dura para sempre.  Esta misericórdia interminável pertence unicamente àqueles a quem o Senhor resolve salvar.

Nunca os filhos de Deus ficam sem misericórdia.

Cada manhã os filhos de Deus são despertados debaixo da misericórdia renovada. A misericórdia do Senhor é grande, não existe pecado dos filhos de Deus tão grave, confessado em arrependimento,  que ela não alcance e suplante com seus efeitos de perdão. Ela é multiforme e infinita. Seu caráter é imutável. Atrelada a fidelidade de Deus sua misericórdia é permanente, confiável pois não está sujeita a mudanças intemperes. A misericórdia do Senhor é soberana, ela sempre triunfa sobre o objeto do olhar bondoso de Deus. Tiago disse que “... a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13b).

O Teólogo alemão Herman Bavinck afirmou que o objeto deste tipo de misericórdia, conforme expressado neste Salmo 136 são os eleitos, os crentes. A misericórdia de Deus com relação aos seus eleitos é infinita por causa de sua fonte, que é o ser perfeito de Deus. Diz Bavinck:

Como ele mesmo [DEUS] é o bem absoluto e perfeito, ele não pode amar nada, a não ser voltado para si mesmo. Ele não deve contentar com nada menos que perfeição absoluta. Quando ele ama outros, ele ama a si mesmo neles: suas próprias virtudes, obras e dons.
(...) Como bem supremo, Deus também é a fonte transbordante de todos os bens. Como Deus é perfeitamente bom, ele é incessantemente beneficente.  (Bavinck, II, 217-19)

É significativo que “bom” ou “bondade” é termo usado no Antigo Testamento para descrever as coisas prometidas por uma aliança. A pessoa que busca refúgio no Senhor conhecerá deveras a bem-aventurança que ele outorga a seus filhos.  (Harman, 163).
Deus mantem a sua misericórdia para com milhares, o que é imediatamente relacionado com perdão de pecados. Parece trivial que tudo isso apenas diga que Deus mantém o seu juramento. O juramento é mantido porque é o Deus amoroso que faz o juramento.

Portanto, hesed (MISERICORDIA, BONDADE, GRAÇA) é uma das palavras que descrevem o amor de Deus.

CARACTERÍSTICAS DA MISERICÓRDIA DE DEUS

Varias características da misericórdia divina tornam-se aparentes no contexto da relação de Deus com seus eleitos:

(1) A bondade de Deus salva as pessoas do desastre dos opressores. Vejam o exemplo de Ló quando foi livrado da morte pelos mensageiros de Deus:

“Eis que o teu servo achou mercê diante de ti, e engrandeceste a tua misericórdia que me mostraste, salvando-me a vida; não posso escapar no monte, pois receio que o mal me apanhe, e eu morra.” (Gn 19.19).

Os Salmos, em particular, estão repletos destes motivos. Geralmente, isso toma a forma de ação de graças, após Deus ter livrado o salmista de seus adversários.

(2) A misericórdia de Deus sustenta a vida. O poder dinâmico da morte está próximo na experiência dos escritores do A.T. É um poder invasivo que busca todas as oportunidades para arrastar alguém à força e exterminar sua vida. A misericórdia de Deus contra-ataca esse poder. É um aliado da vida, uma proteção contra o poder ameaçador da morte.  “Volta-te, Senhor, e livra minha alma; salva-me, por tua graça (hesed)” Salmos 6.4.

(3)   A misericórdia amorosa de Deus neutraliza a sua ira. Às vezes, o texto bíblico sugere que a própria resposta de Deus para o pecado humano corre em direções opostas. Em tais momentos a misericórdia de Deus põe em ação um papel aprimorador ou limitador sobre a sua ira: “num ímpeto de indignação escondi de ti a minha face por um momento;” ouve-se o Senhor dizer em Isaias 54.8, “mas com misericórdia (hesed) eterna me compadeço de ti”.

Miqueias pergunta: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e te esqueces da transgressão o restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia (hesed)”. (Mq 7.18)

(4) A bondade divina é duradoura, persistente, até mesmo eterna. Os escritores bíblicos celebram a eternidade da bondade de Deus. Isso é visto no contraste com coisas que são duradouras, porém não podem durar para sempre. Por exemplo, em Isaias 54.10a registra:

“Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos; mas a minha misericórdia (hesed) não se apartará de ti.”

(5) A misericórdia divina desempenha um papel importante na vida intima e comunitária do povo de Deus. Por um lado ela os leva a Deus (Ex 15.30) e caracteriza o ensino que ministra a eles. Por outro lado, é o foco da esperança deles quando se encontram em dificuldade. O alivio vai trazer o livramento para regozijar e cantar. Ela origina a ação de graças (Sl 107; 138.20). Finalmente, ela supre uma função pedagógica, à medida que é lembrada, recontada, e se medita sobre ela.

(6) A bondade fiel de Deus é abundante. O fato de que a bondade amorosa de Deus é abundante é confirmado de duas maneiras. Primeira: os Salmos fazem declarações cosmológicas – hesed enche a terra (Sl 33.5: “Ele ama a justiça e o direito; a terra está cheia da bondade do SENHOR”;  119.64: A terra, SENHOR, está cheia da tua bondade; ensina-me os teus decretos”.).

(7) A misericórdia divina caracteriza-se pelo governo de Deus e estabelece seu rei. O autor do Salmo 89.14 declara a respeito do Senhor: “justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça (hesed) e verdade te precedem”.

Como reconhecemos essa misericórdia infinita de Deus na história humana?
O Salmo 136 nos ensina!

Notem-se as quatro frases: ele é bom (1), Deus dos deuses (2), Senhor dos Senhores (3), Aquele que só faz maravilhas (4). Pode-se dizer que essas quatro frases servem de subtema para as quatro estrofes seguintes, mas a ordem é invertida.

I.                 136.1-3: CONVITE UNIVERSAL

1 Rendei graças ao SENHOR,  porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre.  2 Rendei graças ao Deus dos deuses,  (...).  3 Rendei graças ao Senhor dos senhores, (...);

O Deus dos deuses, Senhor dos senhores.

Rendei graças basicamente, significa “confessar” ou “reconhecer”, sendo, portanto, que nos conclama à adoração pensativa e grata, declarando tudo quanto sabemos ou descobrimos da glória de Deus e dos Seus atos.

Moisés falou do Deus único e verdadeiro quando disse: “Pois o Senhor, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível” (Deuteronômio 10:17). 1.500 anos depois, João falou da vitória do mesmo Deus: “Pelejarão eles contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Apocalipse 17:14).

A comparação destes dois versículos, como parte de um estudo geral do ensinamento das Escrituras sobre Jesus, mostra claramente a divindade de Jesus. O Tetragrama Yahweh não somente identifica o Pai, mas também descreve o Filho. Da mesma maneira que podemos chamar o Pai de Jeová ou Yahweh, podemos aplicar este nome sagrado a Jesus Cristo.

11 Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. 12 Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. 13 Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; 14 e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. 15 Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. 16 Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES. Apocalipse 19.11-16

O Dr. Simon Kistemarker ao comentar essa frase “PORQUE ELE É SENHOR DOS senhores e O REI DOS reis” descreve:

Os qualificativos dos senhores e dos reis servem para expressar a ideia superlativa. (...) O titulo Rei dos reis denota soberania e autoridade; o título Senhor dos senhores significa majestade e poder. Cada governo, todas as nações e todos os povos estão sujeitos a ele; e todos quantos pertencem ou ao mundo angélico ou à humanidade, que determinam enfrenta-lo em luta, enfrentam uma batalha perdida e uma ruína total.

O salmo, ao se desenrolar, faz exatamente isto, falando aqui do Seu caráter (1) e soberania (2, 3); depois, daquilo que Ele criou e praticou (4 e segs.), e daquilo que continua a fazer (25).

II. 136:4-9. CONVITE A ADORAR O CRIADOR:

4 ao único que opera grandes maravilhas, porque a sua misericórdia dura para sempre; 5 àquele que com entendimento fez os céus, (...); 6 àquele que estendeu a terra sobre as águas, (...); 7 àquele que fez os grandes luminares, (...); 8 o sol para presidir o dia, (...); 9 a lua e as estrelas para presidirem a noite, (...);

Estes convites juntam dois modos que há no Antigo Testamento de tratar o tema da criação: o de Provérbios, que desenvolve o conceito da sabedoria e do entendimento (5) que a criação pressupõe (cf. Pv 3:19-20: “O SENHOR com sabedoria fundou a terra, com inteligência estabeleceu os céus. Pelo seu conhecimento os abismos se rompem, e as nuvens destilam orvalho”.), e o de Gênesis, que narra a história dela (cf. vv. 6-9 com Gn 1:9-10, 16-18).

Este tema, seja onde surgir no Saltério, convida o cristão, não a discutir teorias cosmológicas, mas a deleitar-se no seu ambiente, que lhe é conhecido, não como mero mecanismo, mas como obra de “amor inabalável”. Nenhum descrente possui motivos para uma alegria desta qualidade. Só salvos rendem louvores a Deus por sua obra de Criação!

III.        136:10-16. CONVITE A ADORAR O LIBERTADOR:

10 àquele que feriu o Egito nos seus primogênitos, porque a sua misericórdia dura para sempre; 11 e tirou a Israel do meio deles, (...); 12 com mão poderosa e braço estendido, (...); 13 àquele que separou em duas partes o mar Vermelho, (...); 14 e por entre elas fez passar a Israel, (...); 15 mas precipitou no mar Vermelho a Faraó e ao seu exército, (...);

Aquilo que significa “o julgamento deste mundo” e do seu “príncipe” para o cristão, a partir da cruz e da ressurreição, a derrota de Faraó e suas hostes significava, até certo ponto, para Israel. Esta última também faz parte da nossa própria história, lançando luz sobre a nossa própria redenção e sobre o significado do nosso batismo e peregrinagem.

Os versículos 13-15 sumariam Êxodo 14.21-31. A travessia do Mar Vermelho significou salvação para os israelitas, porém juízo para o exército egípcio perseguidor. A ação de Deus teve duas consequências inteiramente diferentes. Deus não é digno de receber louvores somente pelos seus atos de livramento, mas, também, pelos seus juízos efetuados. Apocalipse 15.1-4 narra que houve jubilo e brado de aleluias quando Deus ordena seus juízos sobre as nações ímpias. O verso três e quatro são impressionantes:
3 e entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! 4 Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos.” Ap 15.3,4

No Êxodo, por ocasião da travessia de Israel no mar vermelho, as águas foram divididas, e Israel passou por terra seca, o Senhor, porém, submergiu os egípcios no mar. Tal demonstração de poder divino levou os israelitas a temerem e a depositarem sua confiança nele e em Moisés, seu servo (Êx 14.31).

IV. 136:17-22. CONVITE A ADORAR O DEUS VENCEDOR:

16 àquele que conduziu o seu povo pelo deserto, porque a sua misericórdia dura para sempre; 17 àquele que feriu grandes reis, (...); 18 e tirou a vida a famosos reis, (...); 19 a Seom, rei dos amorreus, (...); 20 e a Ogue, rei de Basã, (...); 21 cujas terras deu em herança, (...); 22 em herança a Israel, seu servo, porque a sua misericórdia dura para sempre;

(1) Louvor pelas Experiências no Deserto (v. 16). Não foi só no tempo do êxodo que Deus exibiu seu poder. Durante as experiências no deserto, ele deu a seu povo proteção e sustento divino. Ele foi o grande pastor que guiou seu povo como um rebanho e os conduziu em segurança (Sl 78.52,53). Os salmistas parecem ter tomado expressões por empréstimo de Deuteronômio (ver Dt 8.2: 2: “Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos.”  8.15; 29.5), e os profetas descrevem a condução pelo deserto em termos semelhantes (ver Is 48.21: “Não padeceram sede, quando ele os levava pelos desertos; fez-lhes correr água da rocha; fendeu a pedra, e as águas correram”.  Cf. Jr 2.6; Am 2.10).

(2) Louvor pela Conquista. Em sua partida rumo a Canaã, os israelitas tiveram que atravessar território hostil a leste do Mar Morto. Nem Seom, rei dos amorreus, nem Ogue, rei de Basã, permitiram sua passagem sem disputa, e depois de serem derrotados pelas mãos dos israelitas suas terras foram tomadas. Os relatos históricos são dados em Números 21.21-35 e Deuteronômio 2.24-3.11. O território de Seom e Ogue forneceu terra a duas tribos e meia - Gade, Rúben e a metade de Manassés. A promessa básica da terra de Canaã dada a Abraão (Gn 12.7) foi reafirmada no tempo do êxodo e chamada herança de Israel (Êx 32.13). Quando Israel ocupou Canaã, esta foi distribuída por sorte como herança (Nm 33.54), de modo que Deus estabeleceu “as tribos de Israel em seus lares” (SI 78.55). Os israelitas individualmente eram servos de Deus, mas a nação como um todo podia também ser chamada por Deus “minha serva” (cf. também Is 41.8; 44.1,2).

V.             136:23-25. CONVITE A ADORAR A DEUS, NOSSO AMIGO NA HORA DA NECESSIDADE:

23 a quem se lembrou de nós em nosso abatimento, porque a sua misericórdia dura para sempre; 24 e nos libertou dos nossos adversários, porque a sua misericórdia dura para sempre;

Convocação Renovada ao Louvor. Os versículos conclusivos servem para sumariar o salmo como um todo, e talvez expressem a experiência reiterada de Israel desde o tempo da conquista até o exílio. Os w. 23-24 talvez são um resumo da história já contada, mas mais provavelmente a continuam até o tempo presente. Afinal das contas, “o seu eterno amor dura para sempre”, e o refrão tem a intenção de mostrar a relevância de cada ato de Deus a todos quantos cantam o salmo.

Deus não se esquecera de seu compromisso pactual, porém manteve em mente seu povo. A expressão “nosso abatimento”, usada no verso 23, é uma expressão veterotestamentária para “rebaixamento” ou “humilhação”, e podia descrever os tempos de dominação por povos adjacentes durante o período dos juízes ou algum dos períodos posteriores, inclusive a humilhação abjeta do exílio.

Depois, v. 25 passa a alargar o horizonte em termos de espaço, e não somente de tempo.

25 e dá alimento a toda carne, porque a sua misericórdia dura para sempre;

Deus era o libertador, mas foi também aquele que supriu a todos de carne em abundância segundo sua promessa a Noé.

O verso 25 evoca a lembrança da promessa de graça comum de nosso Deus feita por ocasião do pacto com Noé, logo após o assentamento da arca no monte Ararate:

8 Disse também Deus a Noé e a seus filhos: 9 Eis que estabeleço a minha aliança convosco, e com a vossa descendência, 10 e com todos os seres viventes que estão convosco: tanto as aves, os animais domésticos e os animais selváticos que saíram da arca como todos os animais da terra. 11 Estabeleço a minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra.
 12 Disse Deus: Este é o sinal da minha aliança que faço entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, para perpétuas gerações: 13 porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a terra. 14 Sucederá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e nelas aparecer o arco, 15 então, me lembrarei da minha aliança, firmada entre mim e vós e todos os seres viventes de toda carne; e as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda carne. 16 O arco estará nas nuvens; vê-lo-ei e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todos os seres viventes de toda carne que há sobre a terra.
17 Disse Deus a Noé: Este é o sinal da aliança estabelecida entre mim e toda carne sobre a terra. Gênesis 9.8-17


VI.        136:26. CONVITE A ADORAR O DEUS DO CÉU:

26 Oh! Tributai louvores ao Deus dos céus, porque a sua misericórdia dura para sempre;

O versículo final toma o cântico de louvor inicial, retoma o estilo dos vv. 1-3, e o reitera com uma leve alteração, fazendo com que o salmo volte, em efeito, à nota tônica que lhe deu início. O modo de falar a Deus se torna “o Deus do céu”. Em nenhuma outra parte nos salmos ocorre este título, e parece ser essencialmente uma designação para Deus no período pós-exílio (Ed 1.2; Ne 1.4; Dn2.18).

E o que faremos nós, no dia de hoje?

Tomaremos por ação de graças a lembrança viva, real e presente de que nosso Deus é o Deus criador.

Mas, ele não é digno de nosso louvor somente porque criou céus e terra, mas também o sustentador, o provedor de tudo.

Em sua divina providência, Deus fez de si mesmo o redentor e libertador de seu povo. Quantas maravilhas ele tem feito em nosso meio? Você pode contá-las? Mas, certamente, pode cantá-las, assim como o proclamou o profeta Isaías no capítulo 63, verso 7 de seu livro, também nós podemos dizer:


Celebrarei as benignidades do SENHOR e os seus atos gloriosos, segundo tudo o que o SENHOR nos concedeu e segundo a grande bondade para com a casa de Israel, bondade que usou para com eles, segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades. Isaías 63:7

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